URSSinho Misha chorando? Esqueça!

Eu era apenas um adolescente naquele longínquo ano de 1980, quando vi o espetáculo mais emocionante que pode existir: seres humanos demonstrando suas potencialidades criativas, artísticas e intelectuais. Solidariedade infinita.

Agora, vinte e oito anos depois, o que eu pensara impossível aconteceu: novamente, numa Olimpíada realizada em “solo vermelho”, foi criado outro paradigma em termos de abertura e encerramento do maior evento esportivo da face da Terra.

E olha que quem também diz isso são os insuspeitos comentaristas esportivos da dita “grande” mídia mundial: “depois de Moscou, Pequim tornou-se a referência!” (Beijing, para nós, agora íntimos durante um mês dessa cultura de mais de sete milênios).

Nem todo o lixo ideológico regurgitado diariamente sobre nossas cabeças (e na década de 80 não fora diferente) foi capaz de obnubilar a força da luz multi-secular daquele país lá dos lados do sol-nascente, o tal do Oriente. Muito menos apagar a incandescência da chama acesa no monumental (no melhor sentido estético do termo) estádio “Ninho do Pássaro” – símbolo do trabalho, coisa cara a esses “vermelhos”.

Hoje, como se não bastassem os setores reacionários de toda a sociedade, ainda somos achacados por essa ingênua e mal-informada horda neo-tibetana, que presta grandes serviços aos "escritórios de comunicação” dos “xerifes-do-mundo-ocidental”, espalhados pelo planeta.

São aquelas pessoas de quem você nunca recebeu uma mensagem (por e-mail ou qualquer outro meio) tratando dos problemas no Paquistão; no Afeganistão; em Ruanda; Libéria; Costa do Marfim etc. (- África? Onde fica isso?); Iraque; Irã; Palestina em geral; Ossétia do Sul e adjacências; nas periferias das grandes cidades brasileiras ou no sertão, mas estão sempre preocupadíssimos em gritar: “FREE TIBET!” (que naquela língua antigamente falada no Brasil quer dizer algo como “Tibete Livre!”). Livre de quem e de quê, caras-palidíssimas?

Um breve passeio pela História mostrará quais eram as condições tibetanas antes da Revolução: uma favela com esgoto a céu aberto, cheia de gente doente e analfabeta e com expectativa de vida de pouco mais de 28 anos; e pós-1949.

“Ah, mas lá não tem ‘liberdade’, meu!”. Meu São Jorge, eu adoro essa discussão sobre “liberdade”, pois todo mundo sabe que só existe liberdade onde a esquerda não governa, certo? Onde tem esses tais “vermelhos” no poder, nada feito.

Eu concordo. Em Cuba, China, na antiga União Soviética, no Vietnã etc. você realmente não tem liberdade! Nesses lugares você não tem a liberdade de não estudar ou de pagar mensalidades para tal, pois o ensino é obrigatório e gratuito.

Você também não terá a liberdade de morrer na fila de um hospital, muito menos de pagar por um plano de saúde. Nada disso! Lá, a saúde é de primeiro mundo, obrigatória e gratuita.

Não terá a menor chance de sofrer um seqüestro relâmpago; de ser atropelado na calçada ou de ver seu filho ser arrastado por um carro; de não poder usar o seu relógio ao passear pela madruga, “vestindo” a sua cidade; ou “achar” uma bala “perdida”.

Que pena! Gente catando comida no lixo e morando ao relento; crianças cheirando cola e fumando crack ou dançando “na boquinha da garrafa”? Vai ver, não! Esses “vermelhos” não dão liberdade para que isso aconteça – pessoal malvado...

Em nem pense em ligar um rádio, uma tevê e pensar que vai ouvir ou ver tudo o que se produz nos EUA (do lixo ao luxo). Não! Nesses países, eles têm o péssimo hábito de prestigiar seus artistas e sua própria cultura, costumes, manifestações, história e tradições. Tô dizendo que esses “vermelhos” são um azougue, não são?

Quem viu Moscou 1980 e Pequim 2008 e entendeu, sabe do que falo.

Sabe que nenhum povo oprimido seria capaz de tal beleza, de causar tamanho arrebatamento mundial, de protagonizar espetáculos de tal calibre, não fosse a maior liberdade de todas, a liberdade verdadeira: a que coloca o ser humano acima de toda e qualquer coisa; jamais refém e escravo do Capital.

Por isso, cuidado! Esses “vermelhos” são um perigo! E sempre pode haver um deles perto de você, a fim de “acabar” com a sua “liberdade”. E como disse uma grande ensaísta num jornal paulistano: “Esse pessoal quer que aqueles monges continuem monásticos, para que continuem a expiar os desregramentos e pecados de outrem”.  É um falso e idílico problema de “paz” de consciência. Baita egoísmo, no fundo.

No mais, sempre preste muita, muita atenção mesmo em quem você vir por aí “discursando” contra os perigosos e malévolos “vermelhos”.

Olavo Dáda é cantor, compositor e arquiteto, com prêmios em música, cinema, teatro e literatura. Também é co-editor do Cordel Caiçara (www.cordelcaicara.zip.net) e colaborador da imprensa regional (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )


 

Olavo “Dáda” Netoé cantor, compositor e arquiteto nascido em Santos, com prêmios em cinema, dramaturgia e literatura, e comentarista do Programa Painel da Hits F.M. 103,7 (de cujo site www.programapainel.com.br, é Coordenador e Colunista) O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.