O Francisco santo –o de Assis- nasceu em 1181 (ou 1182), na cidade que lhe emprestaria o sobrenome.
Foi batizado como Giovanni di Pietri, mas teve seu nome mudado, pouco depois, por conta de uma homenagem que seu pai, o comerciante Petri de
Bernardone, quis prestar a uma cidade francesa pródiga a seus negócios.

Esse Francisco, o santo, era irmão de todo mundo –fosse gente, fosse bicho.

O Francisco meu irmão, que duvido que seja santo, nasceu em Santos (assim como seus outros três irmãos, eu incluído), quase oitocentos anos depois, em 1966.
Foi batizado Francisco Eugênio, por conta de um nosso tio paterno, Francisco Olavo; e por conta do grande Francisco Alves, o “Chico”, Cantor das Multidões (epíteto criado por César Ladeira –que foi marido da Renata Fronzi). Eugênio era nosso avô materno.

O Francisco meu irmão, que é médico infectologista “dus bão” e é gênio, virou irmão de todos os seus pacientes e familiares destes –além, é claro, de continuar a ser meu irmão e irmão dos nossos outros dois irmãos, o Ti e o Paju...Mas isso é outra história...

Agora, tem um outro Francisco a quem eu não conheço pessoalmente –só de rádio.
Explico: é que ele é ouvinte assíduo do nosso glorioso PROGRAMA PAINEL, do qual tenho a honra de ser um dos comentaristas, por conta de um convite formulado pelo meu amigo-irmão Roberto Mohamed, que também é amigo-irmão dos meus três irmãos...Mas isso é uma outra história.

Esse Francisco aí, eu não sei se tem irmãos e, certamente, também não deve ser santo.
Sei, devido às suas freqüentes participações por telefone, que ele tem 64 anos de idade, tornou-se pai de uma filhinha no dia 27 de maio passado (e, também, não sei se ela tem irmãos ou irmãs), que seu sobrenome é Monteiro (igual ao do grande sambista Cyro Monteiro, o “Formigão”) e é porteiro no bairro da Pompéia (em Santos) –mesmo nome de uma cidade italiana, que foi soterrada em lava pela erupção de um vulcão malvado chamado Vesúvio, no ano de 79 a.C. –bom, mas isso também é outra história...

Sei que esse Francisco, o da Pompéia santista, detesta os presidentes Lula (do Brasil), Evo Morales (da Bolívia) e Hugo Chaves (da Venezuela) –ao que me consta, nenhum dos três é médico e muito menos santo –e quando falo “santo”, é no sentido religioso do termo, que fique claro!

Talvez, em breve, venha a detestar a presidente Michelle Bachelet, do Chile, que também é médica, não é minha irmã, não sei se é santa, mas sei que ela foi barbaramente torturada (se é que existe tortura que não seja bárbara) por canalhas-nada-santos da ditadura Pinochet.

Certamente, esse Francisco, por tabela, também deve não gostar muito do presidente Fidel Castro, de Cuba –que é advogado, tem um irmão chamado Raúl (que eu não sei o que é, pois médico era o Che Guevara) e, para a maioria das cubanas e cubanos, é um santo.

Muito menos deve gostar de outro Francisco, o Buarque de Hollanda, que tem uma porrada de irmãos e irmãs, não é médico e disse, recentemente, que vai votar (de novo) no presidente Lula.

Sei, também, que este Francisco do qual falo agora não gosta muito das coisas que eu falo lá no PROGRAMA PAINEL. Mas creio que ele não desgoste de mim, que nunca fui santo (nem médico). Afinal, como eu já disse lá em cima, nem nos conhecemos pessoalmente.

As coisas que o Francisco critica me preocupam, porque corroboram uma tese pessoal que, infelizmente, venho constatando há tempos: o Brasil é um país tão, mas tão sui generis, que o preconceito de classe existe entre a própria classe a que se pertence.

É óbvio que o preconceito de uma classe para com outra, quando colocadas em seus diversos estratos e substratos sociais, é compreensível e historicamente factual, não para gáudio geral da humanidade: rico versus pobre, e vice-versa. Milionário versus pequeno-burguês; “quatrocentão” (hoje, “quinhentão”) versus nouveau-riche etc.

Eu me recordo, nos tempos em que trabalhava como arquiteto, que em “minha” equipe de funcionários, quando do segundo turno das eleições de 1989 entre o presidente Lula e o ex-presidente-que-a-terra-lhe-seja-pesada Collor, alguns diziam: “Olavo, eu votar em Lula? Um nordestino, operário, pobre e ´inguinorantchiu´ feito eu? Quéissu, Olavo?!?!”.

Eu não entendia... Fui entendendo.
A estruturação dessa ideologia e de seu discurso foi tão bem articulada que, no Brasil, os ditos pobres são de direita. Não todos, obviamente.

Sem mais delongas sociológicas –que sou cantor e compositor-, quero apenas dizer ao nosso Francisco, o do PROGRAMA PAINEL, o seguinte:
- Chicão, se me permite que o chame assim, não tenhamos medo do espelho.
Não o neguemos. Enxerguemos e compreendamos o que vemos.

- Chicão, a única imagem que irá nos salvar, e a nossos filhos-filhas-netos-netas, é aquela que vemos no espelho. E que está refletida, nos dias atuais, em tantos espelhos do Brasil, do Chile, da Bolívia, da Venezuela, de Cuba e de tantos outros países e nações.
Não a temamos. Miremo-a com ternura e a aninhemos em nossos braços –assim como fazemos com os seres que amamos. E –sempre!- com o espírito crítico em estado de alerta vermelho (e não vai aqui nenhum trocadilho com o que esta cor representa ideologicamente).

- Chicão, você pode nem saber, mas somos irmãos, creia-me.
Como dizia o personagem de Raul Cortez, Maguary Pistolão, em “Rasga Coração”, peça teatral do falecido grande amigo de meus pais Oduvaldo Vianna Filho –o Vianninha-, “a lágrima que choro é revolucionária!”.

E pode ter certeza, Chicão, de que ninguém chorará nossas lágrimas por nós. Não as emprestemos aos que nos dizimam. Mas, isto sim, aos que libertam. Choremos (e combatamos) com e por estes.

No mais, fica meu abraço fraterno a todos os “Franciscos” do mundo –os do bem, é claro; os “sangue-bão”.
Meu abraço muito especial ao nosso Francisco, o do PROGRAMA PAINEL. Muita saúde e muita, muita, muita paz.
E um convite, Chicão: -quem sabe, dia desses, não tomamos uma Brahma gelada naquele boteco ao lado da igreja da Pompéia, na Euclydes da Cunha?

Então, falaremos de espelhos, lágrimas, trabalho, filhas e filhos (também tenho uma de 15 e um moleque de 6 meses). Sobre como chegar aos 64 batendo esse bolão que você ainda bate.
Talvez ali, no momento de nosso terceiro ou quinto brinde, você venha a entender porque choro tanto por você, por mim e por todo o povo oprimido do mundo.

Talvez, ali, você venha a descobrir –e entender- porque mesmo sem que nos conheçamos, sempre fomos irmãos... Nem médicos, nem santos...”Não somos máquinas, homens é que somos!”.
Mas isso é outra história...


Olavo “Dáda” Netoé cantor, compositor e arquiteto nascido em Santos, com prêmios em cinema, dramaturgia e literatura, e comentarista do Programa Painel da Hits F.M. 103,7 (de cujo sitewww.programapainel.com.br, é Coordenador e Colunista)

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.